Atirei um pau no gato-to. Não me pergunte por que. O gato estava ali e de repente eu quis matá-lo. Não sou um homem violento, mas naquele instante me transfigurei. A gente não se conhece, não é mesmo? Somos o nosso maior mistério. Aquele gato não significava nada para mim. Verdade que não era um gato comum. Era um gato-to. Mas mesmo assim. Quando vi estava com o pau na mão fazendo mira. O gato-to me olhou, viu que eu ia fazer e quis fugir. Mas fui mais rápido. Atirei o pau no gato-to. E acertei. Fiquei satisfeito-to. Era toda a agressividade retida dentro de mim, as frustrações da vida moderna, sei lá. Ou quem sabe a minha implicância com gatos que naquele momento explodia numa ação irracional. Eu queira matá-lo. Sim, matá-lo.
Mas o gato-to não morreu-rreu-rreu. Se atirar um pau naquele gato e matá-lo fosse me libertar, eu continuava prisioneiro das minhas frustrações. Nem matar um gato-to eu conseguia.Notei que todos em volta me olhavam de uma maneira estranha. Alguns com reprovação, outros com incompreensão. O que é que eu tinha contra aquele pobre gato-to? Senti que precisava me justificar. Armava-se naquela praça um movimento surdo de solidariedade ao gato-to. O gato-to talvez pertencesse a alguém. A uma das crianças. O pai da criança viria me pedir satisfações. Eu não tinha mais o que fazer além de ficar atirando paus nos gatos-tos dos outros?
- Desculpe, eu não sabia que o gato-to tinha dono.
- É do meu garot-to.
- Está bem, desculpe-pe. Olhe aí, ele não morreu-rreu-rreu.
- A questão não é esta-ta. É que o gato-to é propriedade privada. O senhor gostaria que eu andasse atirando paus no que é seu?
- Eu já pedi desculpa.
- Desculpas nada, vou chamar um guarda.
Poderia complicar. Me vi sendo corrido da praça por bebês e babás indignados.
- É ele! É ele! Tarado-do!
Como me justificar? Dizer que eu não estava mirando o gato, estava mirando uma criança? As pessoas ficam mais indignadas com a violência contra animais do que contra crianças, que todas praticam. Acertei o gato-to por engano, foi isso. Não tinha intenção. Queria acertar aquele chato de cabelo encaracolado. Olhei em volta, tentando encontrar uma cara compreensiva. Avistei Dona Chica, a do 712. Pelo menos era uma vizinha, nos cumprimentávamos no elevador, ela me ouviria. Dona Chica tinha presenciado tudo.
Dona Chica-ca admirou-se-se com o berrô, com o berrô que o gato deu. Me disse que nunca tinha ouvido coisa parecida. Se fosse um berro. Mas não, tinha sido um berrô. De repente tive uma revelação. Ali estava a resposta. Sim, por isto tinha levantado a mão contra um semelhante e tentado matá-lo. Está bem, um gato-to não era meu semelhante, mas era outro ser vivo. E eu, um partidário da não-violência, atirara um pau no gato-to. Por quê? Porque desde pequeno aquela pergunta me atormentava: por que berrô e não berro? Eu nunca encontrara berrô em nenhum dicionário. Nada o justificava. E no entanto, geração após geração aprendia a mesma coisa, inocentemente. O berrô, o berrô que o gato deu. E naquele dia, naquela praça, eu subitamente vira a minha oportunidade de pôr tudo à prova. Avistara um gato-to, pegara um pau e atirara o pau no gato-to. Naquele instante perdia minha inocência.
Abandonava a teoria e passava a praticar a vida. Dona Chica-ca assegurou-me-me que o gato realmente dera um berrô. Eu estava contente. Não praticara um ato de selvageria mas de rigorosa pesquisa científica. Pelo menos era isso que diria se alguém chamasse um guarda.
Mas as crianças logo se desinteressaram de mim, as babás viraram a cara e o próprio gato-to, que fugira para um matagal depois do berrô, voltou sem me olhar e, aparentemente, sem ressentimentos. Quando subíamos no elevador Dona Chica-ca convidou-me-me a tomar qualquer coisa no seu apartamento-to e eu fui, que também não sou de ferro. Ou de ferrô. Demorara um pouco mas a minha infância tinha acabado-do.
Mas o gato-to não morreu-rreu-rreu. Se atirar um pau naquele gato e matá-lo fosse me libertar, eu continuava prisioneiro das minhas frustrações. Nem matar um gato-to eu conseguia.Notei que todos em volta me olhavam de uma maneira estranha. Alguns com reprovação, outros com incompreensão. O que é que eu tinha contra aquele pobre gato-to? Senti que precisava me justificar. Armava-se naquela praça um movimento surdo de solidariedade ao gato-to. O gato-to talvez pertencesse a alguém. A uma das crianças. O pai da criança viria me pedir satisfações. Eu não tinha mais o que fazer além de ficar atirando paus nos gatos-tos dos outros?
- Desculpe, eu não sabia que o gato-to tinha dono.
- É do meu garot-to.
- Está bem, desculpe-pe. Olhe aí, ele não morreu-rreu-rreu.
- A questão não é esta-ta. É que o gato-to é propriedade privada. O senhor gostaria que eu andasse atirando paus no que é seu?
- Eu já pedi desculpa.
- Desculpas nada, vou chamar um guarda.
Poderia complicar. Me vi sendo corrido da praça por bebês e babás indignados.
- É ele! É ele! Tarado-do!
Como me justificar? Dizer que eu não estava mirando o gato, estava mirando uma criança? As pessoas ficam mais indignadas com a violência contra animais do que contra crianças, que todas praticam. Acertei o gato-to por engano, foi isso. Não tinha intenção. Queria acertar aquele chato de cabelo encaracolado. Olhei em volta, tentando encontrar uma cara compreensiva. Avistei Dona Chica, a do 712. Pelo menos era uma vizinha, nos cumprimentávamos no elevador, ela me ouviria. Dona Chica tinha presenciado tudo.
Dona Chica-ca admirou-se-se com o berrô, com o berrô que o gato deu. Me disse que nunca tinha ouvido coisa parecida. Se fosse um berro. Mas não, tinha sido um berrô. De repente tive uma revelação. Ali estava a resposta. Sim, por isto tinha levantado a mão contra um semelhante e tentado matá-lo. Está bem, um gato-to não era meu semelhante, mas era outro ser vivo. E eu, um partidário da não-violência, atirara um pau no gato-to. Por quê? Porque desde pequeno aquela pergunta me atormentava: por que berrô e não berro? Eu nunca encontrara berrô em nenhum dicionário. Nada o justificava. E no entanto, geração após geração aprendia a mesma coisa, inocentemente. O berrô, o berrô que o gato deu. E naquele dia, naquela praça, eu subitamente vira a minha oportunidade de pôr tudo à prova. Avistara um gato-to, pegara um pau e atirara o pau no gato-to. Naquele instante perdia minha inocência.
Abandonava a teoria e passava a praticar a vida. Dona Chica-ca assegurou-me-me que o gato realmente dera um berrô. Eu estava contente. Não praticara um ato de selvageria mas de rigorosa pesquisa científica. Pelo menos era isso que diria se alguém chamasse um guarda.
Mas as crianças logo se desinteressaram de mim, as babás viraram a cara e o próprio gato-to, que fugira para um matagal depois do berrô, voltou sem me olhar e, aparentemente, sem ressentimentos. Quando subíamos no elevador Dona Chica-ca convidou-me-me a tomar qualquer coisa no seu apartamento-to e eu fui, que também não sou de ferro. Ou de ferrô. Demorara um pouco mas a minha infância tinha acabado-do.
Luis Fernando Verissimo
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